Escravos do tempo

segunda-feira, dezembro 01, 2014 1 Comentários A+ a-

O tempo passa. Em sua inconstância usurpadora, em sua lentidão exagerada, em seu arrastar das horas, ele passa. Nós não somos mais quem éramos dois minutos atrás. Sangue correu por nossas veias, células morreram em nosso corpo, envelhecemos mais um pouco. Nossa vida se encurtou em dois minutos e as batidas do relógio não param.
Depois de um tempo, deixamos algumas coisas de lado, mudamos de opinião. Crescemos, evoluímos ou regredimos, mas mudamos. Sempre mudamos. Deixamos de ter medo do escuro, ou aprendemos a temê-lo. Deixamos de lado as coisas de criança e abraçamos o peso de sermos adultos. Ombros que antes carregavam somente sonhos e vontades, agora aprendem a carregar o fardo do mundo.
Com o passar despreocupado do ponteiro, morremos. A cada dia, a cada mês, a cada ano. Nós nascemos destinados ao fim. Por isso é tão necessário deixar certas coisas de lado, aprender com a dor o erro. É necessário calejar os dedos de trabalho árduo, mesmo que os resultados sejam pouco gratificantes. É necessário deixar o amor de lado, porque você aprende que amar é inútil, e que com a dor, as lágrimas secam, e o coração torna-se amargurado. Com o tempo você aprende que é preciso deixar a dor de lado, porque sofrer não mata a fome, não cura a febre. A dor só serve para dilacerar ainda mais a alma, que com o tempo, cansa.
E as portas se fecham, seu coração se fecha. Porque com isso nós aprendemos que a frieza também salva, e a salvação é dom de poucos. Ouvem-se as batidas, mas não se abrem as portas. Aprendemos que a solidão pode ser amiga, e que as sombras são companheiras silenciosas e fiéis da nossa história. E fazemos dela, a sombra, nossa única amiga. Deixamos de lado a confiança. Aprendemos que a espera só borra maquiagens, despedaça corações e nos deixa mais suscetíveis ao erro, à falha.
Passaram-se anos, e já não temos medo, se o temos, não demonstramos como antes. Aprendemos que demonstrar fraquezas é dar armas para usarem contra você. Enterramos sonhos, cedemos lugar às necessidades. O querer perde e a obrigação descobre seu espaço, e logo ela toma mais e mais de nós. O peso do mundo deixa-nos corcundas.
E o tempo continua passando, sem pedir licença, sem pedir desculpas. E foram-se anos da nossa vida. Casamos, tivemos filhos, mudamos de casa, de cidade. Trocaram -se os móveis, as cortinas, mas nossos olhos continuam a enxergar as mesmas coisas, os mesmos medos. Os monstros ganham outros rostos, outros nomes, mas ainda nos perseguem. E as guerras, a fome, o ódio, as discussões dentro dos ônibus, tudo isso prova apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Mas como nos libertar da única coisa que é realmente nossa? Quem quer enfrentar a realidade? Quem quer realmente fazer isso? E então você olha para trás e lá se foram dias, semanas, meses e anos. E lá se foi sua vida e lá se foram seus sonhos. E você está sozinho, e com medo. E tudo que tem não importa mais, o que importa é o que você fez. O que importa realmente no fim é quem você foi ou é. As mudanças que você fez, as escolhas, os tropeços, é isso que importa. Sua história é tudo que lhe resta. E então o tempo acaba e sua vida se esvai como a água pelo ralo. E o tempo passou e você nem notou. Sua vida é escrava do tempo, você é escravo do tempo. Quem você foi pode ser esquecido, porque o relógio é implacável e ele não para, apenas passa.

- Cora.



Texto vencedor do 1º concurso literário da academia de letras, artes e ciências do Brasil, prêmio Camilo Leal (Crônica)– Infanto-juvenil. Primeiro lugar na categoria nacional e segundo lugar na categoria internacional.

Textos, frases, crônicas, drama e uma mistura de coisas que só quem sente pode entender. O blog é uma mistura de tudo aquilo que passa na minha confusão mental, um pouco de crítica, um pouco de jogos, um pouco de tudo pra quem pensa em tudo.

1 comentários:

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Vinícius
AUTORA
6 de agosto de 2015 às 20:43 Apagar

Quando terminei de ler o seu texto eu parei um momento, chorei um pouco e aqui estou. Cada frase nele presente demonstra a mais pura verdade. Há aqueles autores que espalham as melhores passagens (que são poucas) e também existem aqueles que, assim como você, fazem cada linha se tornar marcante. Esse texto merece vencer o mundo! É simplesmente fantástico, eu o li e nem percebi o tempo passar. Nossa, é como se ele fosse subatômico. Muio doido! rs Parabéns, Cora!

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